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Última Atualização: 23/04/2013 às 10:20:14 por: mario
 
PRECISA DE INSPIRAÇÃO? PEP GUARDIOLA (I)
(* Florencia Lafuente)

Em 4 anos, comandou o Barcelona em 265 partidas: venceu 190, empatou em 52 e perdeu 35 (13%). Sob seu comando, o time marcou 676 gols (2,55 por jogo) e sofreu 198. Efetividade no desempenho: 78%.

Aos 41 anos ele é o líder do momento. O ex-técnico de futebol estelar Barcelona - que, após um ano sabático sem bola, vai dirigir o Bayern de Munique - conseguiu tudo com que um líder sonha em uma época de ceticismo quanto a liderança.

Uma despedida" foi o título da comovente coluna que o escritor catalão Enrique Vila-Matas, autor de livros memoráveis como Dublinesca e Bartleby e Companhia (os dois, ed. Cosac Naify), escreveu no jornal espanhol El País em junho de 2012, quando Josep "Pep" Guardiola pediu demissão do cargo de técnico de seu time do coração. Vila-Matas é sócio do Camp Nou desde 1957 (tinha 3 anos), data de sua inauguração como estádio oficial do Fútbol Club Barcelona. Para ele, a façanha de Pep como técnico do Barça é destino, não tem volta.

"Aconteça o que acontecer, haja paz ou haja guerra, tudo leva a crer que Guardiola se envolveu pela vida toda, e até poderemos vê-lo treinar a seleção chilena ou a francesa, o Bayern ou o Chelsea, mas seu verdadeiro destino sempre estará ali, a sua espera."

Inconsolável, o escritor catalão encarnava a amargura dos jogadores, dos fãs e até do futebol como um todo com a decisão inesperada do bem-sucedido treinador, o melhor que o clube já teve. "Estou vazio e necessito me reabastecer; quero recuperar a paixão", disse Guardiola em seu discurso de despedida. E, característico de seu estilo de liderança tranquilo e generoso, mostrou-se agradecido aos jogadores "por tornarem realidade as partidas que imaginei. Isso não tem preço".

Guardiola partiu para Nova York para desfrutar de um ano sabático com sua mulher e três filhos, instalou-se na região mais chique de Manhattan, o Upper West Side, e tudo seguiu seu curso. Em seu lugar ficou seu ajudante e colega da época em que jogou nas categorias de base do Barça, Tito Vilanova, uma aposta do clube na liderança interna.

Mas logo a história sofreu uma guinada. O "noi de Santpedor" (em catalão, "menino de San Pedro", povoado de agricultores ao norte de Bages, na Catalunha central, onde nasceu Guardiola), diante de tantas ofertas de trabalho, aceitou dirigir o Bayern de Munique, a partir de julho de 2013, por três temporadas.

"O motivo não foi o dinheiro", disse, quando se tornou público que seu salário seria de US$ 22,7 milhões anuais, o mais alto do futebol mundial. Entre as razões de sua escolha pesaram a ordem do clube alemão, o respeito pela hierarquia e até a menor pressão da liga em termos de exposição. No posto de técnico, Guardiola substitui Jupp Heynckes, cujo salário chegava a US$ 7 milhões. Dizem que o valor do contrato com os alemães é menor do que o Manchester City, o Chelsea e mesmo a liga italiana tinham lhe oferecido.

"Pep Guardiola é um dos treinadores mais bem-sucedidos do mundo", declarou Karl-Heinz Rummenigge, presidente do Bayern. "Temos certeza de que trará muito brilho não apenas para o time, mas também para o futebol alemão." Notava-se a euforia contida de Rummenigge - ex-jogador, duas vezes Bola de Ouro e vencedor da Eurocopa de 1980. Não resta dúvida: o "noi de Sanpedor" é o herói do momento.

Várias vezes Pep levou os seis melhores títulos possíveis: a Copa del Rey; o título da Liga; a Liga dos Campeões a UEFA; a Supercopa da Espanha; a Supercopa da Europa; e o Mundial de Clubes. Foi o único técnico de futebol da história a conquistar os seis títulos no mesmo ano. Ganhou 14 troféus de 19 e 11 finais das 12 que jogou. É um apaixonado pelo futebol, que pratica desde os 3 anos. "Descobri cedo na vida essa vocação e tenho a sorte enorme de me pagarem para fazer o que mais amo."

Chegou a La Masía, a academia das categorias de base do Barça, em 1984. Tinha 13 anos. Jogou no juvenil durante seis temporadas, até que em 1991 Johan Cruyff, o craque holandês que treinou o Barça de 1988 a 2009, convocou-o a jogar no time principal. Só que, além de jogador, Pep descobriu seu talento para desenvolver talentos. Em uma entrevista para o jornal Sport.es, o treinador argentino Marcelo Bielsa o definiu como o construtor do time que liderou (aperfeiçoando, embelezando) o futebol dos últimos 25 anos. "Ele fez um futebol melhor, executado pelos jogadores que escolheu, que imaginou."

Em seu livro La Roja: el Triunfo de un Equipo (ed. Alienta), Juan Carlos Cubeiro, diretor da Eurotalent e professor das universidades San Pablo - CEU e Esade, e Leonor Gallardo, doutora em educação física e professora da Universidad de Castilla-La Mancha, destacam que a liderança de Guardiola se consolidou pelo fato de ele mesmo ter tido bons treinadores, entre os quais Johan Cruyff e Louis van Gaal, o holandês que também foi técnico do Bayern de 2009 a 2011 e dirigiu Pep  em 2000.

Gaal acredita que o grande valor dele como jogador era sua capacidade de estruturar o jogo, graças a suas habilidades de comunicação. Outro que o influenciou foi Juanma Lillo, com quem Pep nunca jogou, apesar de ambos estarem no México na mesma época, mas que foi seu grande mentor técnico e conselheiro, assim como Manuel Estiarte, seu melhor amigo, considerado o melhor jogador de polo aquático de todos os tempos e responsável pelas relações exteriores do Barça. (Estiarte pediu demissão quando Guardiola saiu do clube). "O segredo de Guardiola foi transmitir valores à equipe, fazer com que os jogadores soubessem que há algo mais do que futebol", disse Estiarte. O meio-campista Xavi Hernández comentou certa vez: "Guardiola é muito inteligente, e esse é o segredo - como convence, como motiva".

"A multiculturalidade é um dos ingredientes essenciais da nova liderança", escrevem os autores de La Roja. "Guardiola jogou, depois de seus 17 anos de Barcelona, no Brescia (com o célebre Roberto Baggio) e no Roma, da Itália; no Ah-Ahli, do Catar; e no Dorados de Sinaloa, do México. Foram cinco anos nos quais aprendeu muito. Para ser criativo, para ter uma mentalidade global, para ‘sair da caixa', a multiculturalidade é imprescindível." O Barça defende abertamente a diversidade; a história do clube seria outra sem os húngaros Franz Platko e László Kubala, Cruyff, os brasileiros Romário e Ronaldinho, e o argentino Lionel Messi.

Quatro anos à frente do Barcelona - de 2008 a 2012 - repletos de triunfos, provaram, sem dúvida, que Pep é um homem ambicioso, ainda que simples e humilde. Seu ego está sob controle: não dá entrevistas e, quando lhe perguntam sobre as causas de seu sucesso, sempre fala de seus jogadores. Esse é seu estilo de liderança. Generoso, inteligente, emocional, alegre, entusiasmado, discreto, reflexivo, obsessivo.

Conhecido por passar horas estudando os vídeos das partidas de seus rivais e os próprios, ficava imaginando estratégias para ganhar. Também analisava os vídeos com sua equipe para detectar erros e jogadas a melhorar. uando Guardiola assumiu como técnico do Barça, era apenas um iniciante. Nunca tinha treinado um time da primeira divisão. Chegou ao clube em um momento de crise: o Barcelona estava desgastado após dois anos sem ganhar títulos e com disputas internas de poder. Mas sua liderança, seus valores profissionais e pessoais, seu compromisso e serenidade para punir os jogadores e seu carinho para estimulá-los foram tão inspiradores que conseguiu tirar o melhor de cada membro da equipe e logo atingiu o sucesso que poucos times no mundo alcançaram.

Jaime Pereira, consultor especialista em gestão de pessoas, define o estilo de liderança de Guardiola como "elegante". Pereira o conheceu em sua época de jogador, e "já então se via com clareza que tinha pinta de líder. Dizia-me que era o organizador do jogo, mas que não tinha vocação para ser ‘mandão'. ‘Meu papel é fazer com que a bola corra pelo campo para que meus companheiros fechem a jogada', comentou comigo".
Pep faz com que seus jogadores se sintam próximos a ele. "Quando substitui alguém durante a partida, cumprimenta o que sai e desafia o que entra", afirma Pereira. "É preciso fazer isso muito bem para que essa proximidade não tire a autoridade do líder. Suas regras são claras; o respeito é o mais importante."

O presidente do Barcelona, Sandro Rosell, descreveu Guardiola como seu melhor treinador. Sua filosofia baseada no trabalho em equipe e na generosidade, longe de fomentar o individualismo ou as superestrelas, estimulava um estilo de jogo que privilegiava o passe de bola por todos os jogadores para valorizar cada posição.

"Perdoo que joguem mal, mas não que não se esforcem", disse Guardiola quando assumiu como treinador. Ele soube transformar o talento individual em coletivo, colocar as estrelas a serviço do grupo. E, quando isso não aconteceu, também soube se desfazer de personalidades egocêntricas, como o português Deco, o brasileiro Ronaldinho e o camaronês Samuel Eto'o. Considerava-os "tóxicos", geradores de ambientes negativos. Foi em 2008, assim que assumiu. "É o melhor para o time e para o clube", explicou.

Juan Carlos Cubeiro, coach e diretor da firma de consultoria Ideo Business, destaca que o verdadeiro talento inclui habilidade e compromisso, e "este último pesa cada vez mais nessa fórmula. Os jogadores demitidos tinham pouco compromisso com o clube. Jogavam mais para si mesmos". E qual é a lição? "Que a atitude e, portanto, o compromisso são mais valiosos do que a habilidade. Conhecimentos e habilidades podem ser aprendidos, mas o compromisso é parte da pessoa."
Cubeiro destaca que Guardiola "é um homem incrivelmente esforçado, além de muito equilibrado emocionalmente. Diante dos resultados esportivos, não entra em euforia nem em apatia". Algo a destacar, porque "mais de 90% da habilidade da liderança é inteligência emocional: como as emoções são canalizadas e depois transmitidas".

Guardiola trabalhou muito para transmitir tranquilidade, o que tirou a pressão da equipe. E é um grande motivador. Os autores de La Roja contam que, antes da final da Liga dos Campeões contra o Manchester United, ele mostrou a sua equipe o filme Gladiador, feito com imagens dos próprios jogadores. Detalhe: a primeira imagem que aparece é a do terceiro goleiro, aquele que nunca entra. Para Guardiola, todos os jogadores são importantes. Depois de ver o vídeo, o Barça arrasou seu rival.
Quando o Barça foi eliminado nas semifinais da Liga dos Campeões em abril de 2012 pelo Chelsea, Guardiola convocou uma reunião em sua casa e anunciou: "Vou sair". Ninguém conseguiu dissuadi-lo. Nem seu grande amigo Manuel Estiarte, nem os jogadores, que, sentindo-se desamparados, não paravam de enviar-lhe mensagens de texto - Xavi, Andrés Iniesta, Víctor Valdés e, sobretudo, Messi, que, após a saída do técnico, confessou: "Devo tudo a ele. Quero agradecer do fundo do meu coração pelo que deu à minha carreira e a mim como pessoa".

Outros jogadores do Barça declararam que queriam que Guardiola continuasse "muitos anos mais". Iniesta destacou que a equipe pensava que Guardiola era uma peça essencial, a mais importante para que tudo funcionasse. O brasileiro Daniel Alves disse: "Sem Guardiola, não somos ninguém; perdê-lo não passa pela minha cabeça". O jornal inglês The Sun resumiu assim sua saída: "Depois de treinar esse clube, seria melhor que abandonasse o esporte e se dedicasse à jardinagem ou à pesca, ou ao triste e indigno ofício de colunista esportivo".

Vila-Matas foi mais lírico, mas igualmente contundente: "Javier Mascherano comentava: ‘Perguntei a Messi se tinha consciência de que havia marcado 72 gols em uma temporada. Por sorte, ele não tem. Talvez Messi não seja humano, mas é bom que continue pensando que é'. É esse o contexto: não ter consciência do que está realizando permite a Messi continuar no Barça mais feliz do que nunca, enquanto com Guardiola acontece o contrário: não é mais treinador porque tem extrema consciência do que alcançou. E mais: intuo que ninguém seja tão consciente quanto Guardiola de que ficou preso num labirinto sem saída. Porque Pep se afasta para descansar, mas todo mundo sabe que um dia vai voltar, que não poderá jamais escapar de seu destino barcelonense".

* Florencia Lafuente - HSM Management.

* MÁRIO HEINEN é psicólogo, pós-graduado em Administração de RH, Dinâmica de Grupo e em Gestão da Qualidade para o Meio Ambiente. Consultor de organizações em Desenvolvimento Humano e Organizacional, RH, Endomarketing, T&D, Qualidade Total, Gestão Ambiental e 'Eco Training'. Coach Profissional (ABRACOACHING). Ex-professor da UFRGS (Administração), da ULBRA (Psicologia), e ex-Diretor da FAJERS. Sócio Diretor da HEINEN - Parceria em Recursos Humanos.

 

 

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