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A arte de saber ouvir

Última Atualização: 20/11/2012 às 10:43:48 por: mario
A ARTE DE SABER OUVIR
(* Mário Heinen)

A minha formação e as minhas atividades profissionais sempre me levaram de encontro a temas fascinantes. E, dentre todos eles, a comunicação humana é um dos mais intrigantes, desafiadores e complexos temas que eu conheço.

Naturalmente, não há como deixar de entender a comunicação humana e a sua relevância: basta compreender que a comunicação é a única coisa que interliga seres humanos com outros seres humanos. Ou seja, os relacionamentos interpessoais dependem básica e exclusivamente da comunicação. Então, não é difícil concluir que os problemas de relacionamento interpessoal são, na sua essência, problemas de comunicação.

Mais ainda, a nossa competência interpessoal está diretamente relacionada à forma como nos comunicamos e/ou à forma de sermos percebidos pelos outros quando nos comunicamos. E, no momento em que consideramos a competência interpessoal, temos que citar os processos de "feedback" (= comunicação!) como fundamentais para a construção da auto imagem, do autoconhecimento, da aprendizagem, dos relacionamentos interpessoais, das competências interpessoais,...

Seguindo essa linha de raciocínio, quero aqui dividir uma outra reflexão com vocês, e que diz respeito ao processo de comunicação: o ‘saber ouvir'.

Eu tenho convicção de que ‘saber ouvir' é uma das nossas maiores dificuldades humanas. Tantas vezes já ouvimos dizer que a Natureza foi sábia ao nos dar dois "aparelhos" para ouvir, e somente um para falarmos - mas que nós ainda não entendemos o porque disso: ouvir mais do que falar.

Ao falar nós estamos dividindo algum conhecimento e/ou informação. Não implica em aprendizado ou aquisição alguma. Dividimos conhecimento e/ou informação mas, felizmente - ao contrário da matemática, dividimos mas não perdemos.

Ao ouvir, e quando sabemos ouvir, é mais do que escutar. Saber ouvir possibilita a aquisição de algum conhecimento/informação e, mais do que qualquer outra coisa, quando falamos em ‘saber ouvir' estamos nos referindo ao bom uso da nossa percepção. ‘Saber ouvir' é muito mais do que estar atento a uma comunicação oral, por exemplo: ‘saber ouvir' é saber perceber as comunicações verbais e não verbais daqueles com quem estamos nos comunicando. De uma boa percepção vem excelentes informações sobre os outros e sobre nós mesmos - e isso é "feedback", autoconhecimento.

E, para ilustrar esse tema, eu trouxe uma crônica sensacional escrita pelo Artur da Távola, memorável intelectual brasileiro (advogado, jornalista, radialista, escritor, professor, apresentador de TV e político brasileiro que usava esse pseudônimo), intitulada "O Difícil Facilitário do Verbo Ouvir".

 

O Difícil Facilitário do Verbo Ouvir
(Artur da Távola)

Um dos maiores problemas de comunicação, tanto a de massas como a interpessoal, é o de como o receptor ouve o que o emissor falou.
Numa mesma cena de telenovela, notícia de jornal, ou num simples papo ou discussão, observa-se que a mesma frase permite diferentes níveis de entendimento. Na conversação dá-se o mesmo. Raras, raríssimas são as pessoas que procuram ouvir exatamente o que a outra está dizendo.
Observe que:
- Em geral, o receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que o outro não está dizendo.
- O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que quer ouvir.
- O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que já escutara antes e coloca o que o outro está falando naquilo que se acostumou a ouvir.
- O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que imagina que o outro iria falar.
Numa discussão, em geral, os discutidores não ouvem o que o outro está falando: eles ouvem quase que só o que estão pensando para dizer em seguida.
- O receptor não ouve o que o outro fala: ele ouve o que gostaria de ouvir ou o que o outro dissesse.
- A pessoa não ouve o que a outra fala: ela ouve apenas o que está sentindo.
- A pessoa não ouve o que a outra fala: ela ouve o que já pensava a respeito daquilo que a outra está falando.
- A pessoa não ouve o que a outra está falando: ela retira da fala da outra apenas as partes que tenham a ver com ela e que a emocionam, agradam ou molestam.
- A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que confirme ou rejeite o seu próprio pensamento. Vale dizer, ela transforma o que a outra está falando em objeto de concordância ou discordância.
- A pessoa não ouve o que a outra está falando: ouve o que possa se adaptar ao impulso de amor, raiva ou ódio que já sentia pela outra.
- A pessoa não ouve o que a outra fala: ouve da fala dela apenas aqueles pontos de vista que no momento a estejam influenciando ou tocando mais diretamente.
Estes doze pontos básicos mostram como é árduo e difícil se comunicar; ouvir, portanto, é muito raro!
É necessário limpar a mente de todos os ruídos e interferências do prórpio pensamento durante a fala alheia!
Ouvir implica numa entrega ao outro. Ouvir é um grande desafio. Desafio de abertura interior, de impulso na direção do próximo, de comunhão com ele, de aceitação dele como é e como pensa.
Ouvir é raridade! Ouvir é um ato de sabedoria!
Depois que a pessoa aprende a ouvir, ela passa a fazer descobertas incríveis escondidas ou patentes em tudo aquilo que os outros estão dizendo a propósito de falar.

Comunicar-se é uma arte: "quem não se comunica, se intrumbica!" (Chacrinha)

* Artur da Távola, o pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, (1936 - 2008) foi um advogado, jornalista, radialista, escritor, professor, apresentador de TV e político brasileiro. Foi um dos fundadores do PSDB. Era apresentador de um programa de música erudita na TV Senado. Exerceu mandatos de deputado federal (1987 a 1995) e senador (1995 a 2003). Como jornalista, atuou como redator e editor em diversas revistas, foi colunista de televisão e jornais, sendo também diretor da Rádio Roquette Pinto. Publicou ao todo 23 livros de contos e crônicas.

* MÁRIO HEINEN é psicólogo, pós-graduado em Administração de RH, Dinâmica de Grupo e em Gestão da Qualidade para o Meio Ambiente. Consultor de organizações em Desenvolvimento Humano e Organizacional, RH, Endomarketing, T&D, Qualidade Total, Gestão Ambiental e 'Eco Training'. Ex-professor da UFRGS (Administração), da ULBRA (Psicologia), e ex-Diretor da FAJERS. Sócio Diretor da HEINEN - Parceria em Recursos Humanos.

 

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