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Brincando de se perder...

Última Atualização: 17/11/2015 às 16:07:25 por: mario
 
Brincando de se perder
(* Dulce Magalhães)

Contradição é tudo aquilo que demonstra dois opostos viáveis. Contradizer-se não é necessariamente errado, pois podemos ter anseios, propósitos e desafios tão diversos que as respostas e reações podem ser até em extremos opostos. Fernando Pessoa, de sua forma sempre poética diz: "Me contradigo porque sou vasto. Só os estreitos não se contradizem". Essa é uma afirmação que merece reflexão e análise.

Tem gente que se orgulha de não mudar de idéia, e qual é a vantagem disso? Temos milhões de neurônios que nunca serão devidamente utilizados, podemos ter muitas idéias, contraditórias, coerentes, opostas, mudar muitas vezes ao longo de um mesmo dia e, mesmo assim, não seremos capazes de utilizar todo o potencial instalado em nosso cérebro. Podemos errar muitas vezes e, ainda assim, não esgotaremos nossas possibilidades de acerto.

Nosso desafio maior não está no limite de nosso potencial, mas no uso que fazemos dele. A questão é que, muitas vezes, nos apegamos a determinada idéia, modelo, rotina, hábito ou mesmo uma mania e vamos repetindo isso infinitamente, sem proporcionar a nós mesmos a oportunidade expansora de uma mudança. Não queremos ser contraditórios e acabamos sendo incoerentes. A desarmonia vem da estagnação, não da mudança. Assumir riscos e ousar em novas possibilidades é uma aventura que deveríamos nos permitir diariamente.

Uma amiga muito querida me contou a diversão máxima que ela propunha aos filhos, quando esses ainda eram pequenos: brincar de se perder. Aos domingos, eles saíam de carro, sem rumo e sem propósito, para descobrir novos cenários, encontrar lugares e pessoas diferentes, provar comida estranha e visitar o desconhecido. Essa era uma diversão que as crianças adoravam, porque permitia uma exploração da realidade para além das fronteiras já estabelecidas, interna e externamente.

Hoje, os três filhos são adultos saudáveis que não tem medo de se perder, pois sabem o que de mais importante há para aprender: eles conhecem a si mesmos e os seus limites e potenciais para lidar com o novo e o desconhecido.

Ficamos melhores naquilo que treinamos mais. E precisamos também aprender a nos perder, sair dos trilhos conhecidos para as trilhas menos usadas até sermos capazes de criar nossos próprios, únicos e singulares caminhos. Por hábitos muito arraigados, mantemos rotinas que nós mesmos não gostamos; porém, nos sentimos frustrados e impotentes para produzir uma mudança. Queremos transformar nossa saúde, nossa alimentação, nossas relações ou nosso conhecimento, contudo seguimos fazendo as mesmas coisas do mesmo jeito. Não é possível mudar sem mudar. Tornar-se contraditório é um saudável exercício para viver os ciclos da impermanência. Nada segue igual, porque deveríamos tentar?

Gosto muito de idéia de nos perdermos, sair sem rumo e sem metas, nos aventurarmos na exploração livre da vida. Há uma antiga lenda veneziana que conta que só conhecemos mesmo Veneza quando nos perdemos entre suas ruelas e seus encantadores canais. Enquanto trilhamos apenas os caminhos próximos e bem conhecidos, deixamos de fora de nossas possibilidades a maior parte do cenário. E é quando nos perdemos que podemos, finalmente, descobrir quem somos, longe dos modelos impostos, livres das máscaras sociais e em maior cumplicidade conosco mesmos. Perder-se pode ser a melhor forma de se encontrar. Sorte!

* Dulce Magalhães - Educadora, Pesquisadora, Escritora e Palestrante. Ph.D. em Filosofia pela Universidade Columbia (USA), Mestre em Comunicação Empresarial pela Universidade de Londres (Inglaterra), Pós Graduada em Marketing pela ESPM-SP, Especialização em Educação de Adultos pelas Universidades de Roma (Itália) e Oxford (Inglaterra), autora de diversos livros.

"Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros foram." (Graham Bell)

"A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original." (Albert Einstein)

"Avalia-se a inteligência de um homem pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar." (I. Kant)

* MÁRIO HEINEN é psicólogo, pós-graduado em Administração de RH, Dinâmica de Grupo e em Gestão da Qualidade para o Meio Ambiente. Consultor de pessoas e organizações em Desenvolvimento Humano & Organizacional: RH, Endomarketing, T&D, Qualidade Total e 'Eco Training', Palestrante e 'Professional Coach'. Ex-professor da UFRGS (Administração), da ULBRA (Psicologia), e ex-Diretor da FAJERS. Sócio Diretor da HEINEN - Parceria em Recursos Humanos.

 

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