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Última Atualização: 17/04/2017 às 10:44:42 por: mario
FALAR MENOS, VIVER MAIS...!
(* Felipe de Souza)

Conheça algumas dicas práticas da psicologia cognitiva para pensar e falar menos. E viver mais.

Há um tempo atrás eu publiquei o seguinte texto - Comportamento verbal: pessoas que falam demais - e uma dúvida surgiu: "Como falar menos?"
Em princípio, a ideia de falar menos pode ser estranha ou sem propósito, mas como falar e pensar são comportamentos mais próximos do que se imagina, o problema não é tanto a quantidade do que se fala ou pensa; e, sim, a qualidade.

Por exemplo, ontem eu voltei para casa de ônibus. Me sentei no banco da frente de duas amigas que conversavam sobre os seus respectivos trabalhos. Como ainda estou aprendendo a arte de não-ouvir português (já repararam como é difícil não-ouvir a sua língua materna e como é muito mais difícil ouvir uma língua estrangeira que estamos aprendendo?), acabei ouvindo uma parte da conversa. Basicamente, reclamações e mais reclamações e mais reclamações.

Através da psicologia cognitiva, sabemos que as mulheres tem mais probabilidade de ter um quadro depressivo justamente porque elas tem maior tendência à ruminação, ou seja, a tendência de ficar se lembrando do passado e ruminando-o. Para quem não sabe ou não se lembra das aulas de biologias, temos a seguinte definição para ruminação, segundo o dicionário Michaelis:

(do latim ruminare)

1) Mastigar segunda vez; remoer (os alimentos que voltam do estômago à boca); rumiar.

2) Remascar os alimentos: Os bois ruminavam em modorra.

3) Pensar muito a respeito de (algum plano, problema, projeto etc.); revolver no espírito.

Esta palavra, ruminação, é interessante porque também pode ser utilizada metaforicamente: ficamos mastigando, mastigando, mastigando (um evento, uma situação passada), mas não conseguimos engoli-lo ou assimilá-lo ou digeri-lo.

As mulheres tem, assim, uma maior probabilidade de desenvolver um quadro depressivo porque tem maior tendência à ficar ruminando o que passou. Não que os homens não tenham, de todo, esta característica. Seria simplista dividir o mundo em dois gêneros separados. Apenas queremos notar aqui, como faz Aaron Beck em seu livro Depressão causas e tratamentos (que estudamos no Curso Psicologia Cognitiva da Depressão) esta maior probabilidade.

Voltando ao tema do nosso texto, podemos passar a perceber que o conteúdo de um pensamento e de uma fala vai afetar o modo como nos sentimos. Se as duas amigas não ficassem focando só nos aspectos negativos de seus trabalhos, estariam mais alegres, certamente.

Contudo, o aspecto mais interessante da quantidade de pensamentos que temos ao longo de um dia (que podem ou não ser expressados oralmente) é que é raro a vinculação com o presente. Os pensamentos, em sua grande maioria - faça o teste em ti mesmo e você verá - estão sempre distantes do momento atual:
- vão para o futuro (preocupações, planos, anseios, medos);
- vão para o passado (lembranças de todos os tipos, especialmente as mais fortes emocionalmente).

Dicas para falar menos

Isto posto, temos uma forma simples de diminuir a quantidade de pensamentos e falas: manter a atenção mais focada no momento presente. Se você não pudesse falar nada sobre o passado e se você não pudesse falar nada sobre o que vai acontecer, sobre o que você falaria?

Esta pergunta é como um koan zen, um enigma e uma brincadeira para paralisar o pensamento: "Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ver. A queda da árvore produz um som?" ou "Como era o seu rosto antes do seu nascimento?"

Outra forma de diminuir o fluxo de pensamentos é dar um passo para trás. Como nós normalmente assimilamos o que pensamos com quem somos, achamos que o nosso pensamento nos define. Mas como escreve Jung no Livro Vermelho: Tuas ideias estão tão fora de teu si-mesmo quanto as árvores e os animais estão fora de teu corpo" (JUNG, 2013, p. 167).

Em outras palavras, a não ser que haja uma participação mística, não identificamos objetos externos com o nosso ser. Mas identificamos os nosso pensamentos com a nossa identidade. Separar mais o pensamento e o ser, necessariamente, dá margem para mais silêncio.

"Quem pensa este pensamento que eu estou pensando?"
"Como seria este pensamento pensado por outra pessoa? Como se outra pessoa o estivesse pensando?"
"Como eu posso pensar este pensamento?"

Todas estas dicas aprofundam a introspecção e, consequentemente, a auto reflexão, a autoconsciência. Por exemplo, se encontramos um pensamento e ele não é útil de nenhuma forma (quase nenhuma reclamação tem utilidade), podemos deixá-lo de lado e não alimentá-lo mais. Ou podemos deixá-lo passar como uma nuvem.

Conclusão

Eu comecei falando sobre a tendência à ruminação observada com mais frequência nas mulheres e descrita na psicologia cognitiva. A psicologia cognitiva tem uma linha de desenvolvimento chamada de Mindufulness Psychology, a Psicologia da Atenção Plena.

É curioso notar o diagnóstico que vem sendo dado a torto e a direito de Transtorno de Déficit de Atenção. Digo curioso porque - mesmo sem base científica nenhuma - nunca se questionou como aumentar a atenção. Diz-se que uma criança tem dificuldade de prestar atenção em uma aula. Mas o adulto vai ter a capacidade de ficar 4 horas assistindo uma aula da faculdade? Ou vai querer um intervalo?

Quer dizer, culpa-se e diagnostica-se a falta de atenção, mas não há quase nada na nossa cultura para criar atenção. E é justamente essa a proposta da Mindfulness Psychology, a Psicologia da Atenção Plena.

Um dos primeiros passos é o de voltar a atenção para o momento presente. Isto porque o passado não existe (mais) e o futuro não exite (ainda). Podemos nos perguntar:

"Agora-agora-agora, o que está acontecendo?"
"Agora-agora-agora, há algum problema?"

Ficaremos espantados com o fato de que quase nunca há um problema no presente. Os problemas estão longe: no passado ou no futuro...

Como consequência desta prática de voltar a atenção para o presente, temos naturalmente uma diminuição da quantidade de pensamentos.
Afinal, se não voltarmos a nossa atenção para o que aconteceu e para o que pode acontecer, o que acontece?

Vivemos mais. Pensamos e falamos menos...!

(*) Felipe de Souza - Professor - Psicologia MSN.com .

MÁRIO HEINEN é psicólogo, pós-graduado em Administração de RH, Dinâmica de Grupo e em Gestão da Qualidade para o Meio Ambiente. Consultor de pessoas e de organizações em Desenvolvimento Humano & Organizacional: Gestão de Pessoas/RH, Pesquisa/Diagnóstico Organizacional e de CI/Endomarketing, T&D, Planejamento Estratégico, Qualidade Total, Excelência em Serviços, 'Eco Training', 'Coaching' (ABRACOACHING); Palestrante, Instrutor de Treinamentos e Educador Experencial. Ex-professor da UFRGS (Administração), da ULBRA (Psicologia), e ex-Diretor da FAJERS. Sócio Diretor da HEINEN - Parceria em Recursos Humanos, Empresário e Chef de Cozinha.

 

 

 

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